Uma Viagem

Como é engraçado. A janela está aberta. O vento corre forte. Olho longe porque não tem ninguém na minha direção. As mãos no volante não tremem mais. As costas não suam. Acho que depois de alguns anos com a habilitação para dirigir esquecemos o nervosismo no porta-malas. Pode parecer estúpido, mas sempre achei que quando tivesse minha carteira seria mais livre. Mas não. Que ironia.

São dez para as seis da manhã, e o sol começa a nascer bem a minha frente. As cores fortes se misturam e é impossível não se surpreender. Elas se misturam da mesma forma que meus sentimentos. E são levados pelo vento para o banco de trás onde meu filho dorme.

É lindo ter um filho. É horrendo estar sozinho.

O rosto redondinho dele, com seus enormes cílios que provavelmente vão cair pelo tanto que coça os olhos azuis. O cabelo loiro curtinho, mas mesmo assim bagunçado. Usando seu pijaminha, um macacão xadrez verde com branco. E os pés descalços. Quatro anos de beleza e amor.

Ao meu lado, no passageiro, somente uma lembrança. Não sei se boa ou ruim. Ainda não tive tempo de decidir. Mas é como o nascer do sol. Ela puxa meus sentimentos, que estão todos bagunçados.

Ela é só uma lembrança agora. Ficou na casa que outrora era nossa. Agora é dela. Ficou com o cachorro que era meu. Agora é dela. Só não ficou com o carro, que era dela. Agora é meu.

Posso dizer que vivíamos bem. Um apartamento de 120 metros quadrados. Móveis planejamos. Eletrodomésticos de última geração. Mais uma ironia. Nossa sanidade já estava mais vencida do que qualquer comida perecível sob calor intenso e constante. Provavelmente nunca deveria ter sido, mas queríamos que fosse. Acabou sendo. E por isso ele está no banco de trás.

Vai ser difícil ensinar meu filhote a viver sem a mamãe. Se nem eu sei como viver sem ela, pensa esse moleque. Que vida essa.

Sempre imaginei tudo de forma muito simples, mas no fim das contas, o que me cansa são as próprias pessoas. Elas que geram os problemas. Elas que causam estresse. Cansei dessa vida. Decidi fugir. E não vou deixar meu filhote sozinho nesse mundo de maluco.

O carro corre a cento e vinte quilômetros por hora. Eu corro a quinhentos e sessenta. Meu pequeno ainda está dentro do limite. Vou fazer tudo o que posso para que ele se mantenha são.

Estamos indo para uma fazendinha. Ela é realmente minha. Ou não. É da minha família a algumas gerações já. Sem internet, sem celular, sem muita gente, sem o mundo aí de fora. Ali posso viver a realidade. Completa. Sem interferências para estragar meus relacionamentos.

Queria poder rebobinar o universo. E estar no começo dele. Só para ver como de fato aconteceu. Assim não teria problemas. Assim, saberia viver uma vida plena.

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