Cartas de Um Diabo a Seu Aprendiz

Chegou as minhas mãos como um presente despretensioso. Já o tinha visto por aí (com uma capa dessas, como não olhar?), conhecia o autor por suas outras obras, mas não cheguei a me envolver o suficiente para tirá-lo da esfera do desejo. “Cartas de um diabo a seu aprendiz” foi um livro inesperado. O recebi com muita alegria. Só podia imaginar todo o conteúdo em que eu estava prestes a mergulhar. Só que a imaginação não foi suficiente.

            O livro é um compilado de cartas, escritas pelo personagem Maldanado para seu sobrinho Vermelindo. Ambos são demônios, cada um com seu grau de importância no inferno. Uma clássica estória de mestre e aprendiz. Aqui, Maldanado está auxiliando seu sobrinho na tarefa de tentar ao seu primeiro paciente, ou seja, ser humano. A cada carta vemos o desenrolar da vida desse homem comum e como o diabo tenta atrapalhar este fluir natural e a “descoberta” de Deus.

            Um ponto muito interessante desse livro é como Maldanado trata cada ocorrido, até os mais simples, na vida deste homem. Desde os pensamentos, os relacionamentos, até as catástrofes a sua volta. Ele avalia cada ação do homem, ensina Vermelindo a como reagir e espera as cartas de resposta dele para ensinar os próximos passos. Em certo momento, por estarem passando por um período de guerra, Maldanado começa a discorrer sobre as diferenças entre presente, passado e futuro na vida do ser humano e como usar disso para manipulá-los:

Bem melhor é fazê-los viver no futuro. A necessidade biológica faz com que todas as suas paixões apontem já para essa direção, de modo que o pensamento sobre o futuro sempre inflame a esperança e o medo. Além disso, o futuro é desconhecido para eles, de modo que, fazendo-os pensar sobre isso, nós também os fazemos pensar sobre irrealidades.” (pág. 85).

            Todo o livro segue o mesmo estilo de narrativa deste parágrafo. Falando sobre ações e reações do ser humano as tentativas de Vermelindo. E ele vai tratar de vários assuntos.

            Tenho que confessar que em alguns momentos durante a leitura fiquei confuso. O autor é muito inteligente e criativo de inverter os papéis aqui, então o “Inimigo” passa a ser Deus, o que seria infelizmente para mim como ser humano se torna felizmente para ele, como diabo. “Cartas de um diabo…” não é um livro para se ler correndo, sem prestar a devida atenção. Caso o leia dessa forma chegará um momento em que vai pensar que Deus é a figura ruim da estória, e não mais o diabo.

            Falando nisso, até o próprio C.S. Lewis coloca em certo momento do livro que o mais correto seria ter o contraponto de uma narrativa “angelical”. Mostrando como os anjos estariam agindo ao mesmo tempo. Quais seriam suas formas de sempre chamar a atenção do protagonista. Mas, é muito interessante ver sua humildade ao dizer que talvez não tivesse a capacidade, nem imaginação o suficiente para pensar como um anjo.


livro “Cartas de Um Diabo a Seu Aprendiz” por C.S. Lewis

            O livro foi publicado primeiramente em fevereiro de 1942, e foi dedicado ao J.R.R. Tolkien, autor do Senhor dos Anéis. Isso me deixou muito curioso! Fico fantasiando como seriam as conversas e a amizade dos dois. O quanto às crenças de um afetavam as crenças de outro, não só no sentido de fé e religião, mas em todos os aspectos da vida. E, querendo ou não, os dois estão marcados pelas estórias sensacionais que desenvolveram. (Acho que vou correr atrás de uma biografia, ou ainda ler “O Senhor dos Anéis”).

            Além de tudo isso, nesta edição na Thomas Nelson, tem um apêndice nomeado “Maldanado propõe um brinde”, em que o personagem faz um discurso numa espécie de jantar de formatura universitária. Ali ele traz a tona assuntos muito interessante, e dentre eles a democracia e como suas engrenagens têm funcionado. E o texto encaixa muito bem na contemporaneidade que vivemos.

            Não indico o livro para todo mundo, não. Acredito que cristão farão um maior proveito da leitura de uma perspectiva realista, se é que você me entente. Justamente por se tratar de um livro composto de cartas e não possuir um desenrolar tradicional de um livro de ficção comum. Já o apêndice é diferente: todos no universo deveriam ler este texto. São apenas 20 páginas que tem uma clareza muito específica e o poder de conscientizar a qualquer um que ler. Por ser um texto mais direto, acaba sendo mais simples, mas a genialidade de Lewis a escrevê-lo é a mesma. Não consegui o encontrar online para disponibilizar, mas empresto meu livro para quem quiser ler.

            Um livro extraordinário. Despertou uma curiosidade em mim para ler tudo o que tiver do C.S. Lewis por aí a fora. Simples e penetrante, são palavras que bem descrevem a experiência que tive. Espero que você também tenha.

            Até o próximo post.

Leave a comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *